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Das ruas à beca: escola no Parque da Cidade forma três alunos no ensino fundamental

Richardson Vieira, de 33 anos, é homossexual, soropositivo e está desabrigado. Até este ano, era semianalfabeto. Nas ruas, é difícil estudar pois apenas uma instituição da rede pública em todo o País aceita alunos nessa situação, a Escola Meninos e Meninas do Parque — estacionamento 6 do Parque Dona Sarah Kubitschek. E foi lá que Richardson segurou um diploma pela primeira vez, concluiu o ensino fundamental e foi encaminhado ao 1º ano do ensino médio. “Nunca me formei, nunca coloquei uma beca. Não estou acreditando.” Ele foi um dos três formandos do colégio neste ano.

O homem começou a frequentar a escola em março de 2015, mas o interesse em estudar é mais antigo. Richardson lembrou de quando foi se matricular em outra escola, contudo não portava os documentos que o autorizassem a fazer o curso. “Eu não tinha um comprovante de residência.” Aliás, ter uma casa é o sonho do jovem. Ele quer ter condições de receber visita da mãe, que vive em Minas Gerais e para quem nunca contou que vive nas ruas. “Não quero que ela saiba, vai machucar.”

Ele saiu de Minas Gerais e veio para Brasília se alistar no Exército Brasileiro, mas acabou tomando outros rumos. Envolveu-se com drogas e não teve onde morar. O homem leva um cobertor na mochila para todo lugar que vai. À noite, o sono é pesado. Segundo Richardson, os remédios para controlar o HIV são fortes e causam sonolência. Para ele, esse é o pior momento, pois tem medo de alguém lhe fazer mal enquanto dorme.

Formatura
A formatura celebrada na quinta-feira (17) não foi como as cerimônias tradicionais. O evento começou com um minuto de silêncio. A professora responsável pelo cerimonial explica que a pausa é por aqueles alunos que “já não estão entre nós”. As roupas não eram de gala. Alguns alunos convidados para assistir à cerimônia de formatura dos três colegas estavam com os pés descalços e se acomodaram em cadeiras de madeira.

Apesar de serem 130 alunos matriculados, a diretora Amélia Cristina Araripe explica que ter tão poucos formandos, três dessa vez, é normal. De acordo com a docente, é comum que alguns larguem os estudos por causa das dificuldades do cotidiano, motivos de saúde ou porque conseguiram emprego temporário. “Essa é uma das missões da escola: fazer o máximo para que eles permaneçam.”

Para frequentar a escola, não é necessário documento. A matrícula pode ser feita na administração do colégio. O calendário escolar é o mesmo das outras unidades da Secretaria de Educação, Esporte e Lazer.

Vitória
Simone (nome fictício) é outra formanda. Ela não está em situação de vulnerabilidade como os demais alunos. Mas é vítima de violência velada dentro de casa. O marido a proibiu de estudar. Segundo ela, não há maus-tratos físicos, mas ele a desestimula a procurar por educação. A dona de casa explica que procurou a Escola Meninos e Meninas do Parque porque sabia que não precisaria apresentar documentos para se matricular. “Pensei que, se eles aceitam o morador de rua que não tem uma cédula de identidade, poderiam me aceitar.”

A jornada de estudo ocorria secretamente. Quando o marido estava no trabalho, ela ia para escola. Simone concluiu o ensino fundamental e vai prosseguir com o médio, também na surdina. Para a moça, o estudo é a porta para a realização pessoal. “Aqui [escola] é a luz do meu calabouço, do meu castelo, da minha torre.” O sonho dela é se formar em relações internacionais.

Simone pediu para não ser identificada, já que teme que, com a revelação da “travessura”, o marido a proíba de continuar. Ela, que cortou o cabelo para comemorar o feito, disse que a formatura é uma das maiores conquistas que já teve. “Não tem coisa pior do que estar preso mentalmente.”

“Um juiz que decidiu que meu nome é Rogério Araújo e ele que disse que eu nasci em 23 ‘do oito’ de 1971.”

Estudante
Rogério Araújo, de 44 anos, ainda não se formou, mas não esconde a vontade de seguir o exemplo dos colegas. Ele conta que não teve como estudar. Paulista, ele conta que foi abandonado quando bebê pela mãe. “Não foram os meus pais que me deram o nome. Foi um juiz. Um juiz que decidiu que meu nome é Rogério Araújo e ele que disse que eu nasci em 23 ‘do oito’ de 1971. Pai não identificado, mãe não identificada, e é assim que está no meu documento.”

O homem conta que aos 12 anos entendeu que havia sido abandonado. Nessa época, começou a beber, e fugiu do orfanato. Nas ruas há quase 30 anos, confessa que passou por situações pelas quais não deseja a ninguém. “Cheguei a comer comida do lixo, a beber água de poço e a roubar para me drogar.” Ele não quer mais essa vida. Rogério trabalha com a venda da revista Traços, e diz que a Escola Meninos e Meninas do Parque lhe deu a possibilidade para enxergar outros rumos.

Reconhecimento
Em novembro, a escola ganhou o primeiro lugar do Prêmio Brasília de Ciência, Tecnologia e Inovação para o segundo segmento de Educação de Jovens e Adultos com o projeto Há Luz no Caminho.

Os meninos desenvolveram uma lanterna em que a bateria era uma batata. De acordo com a diretora, o material foi apresentado simbolicamente como um recurso para buscar os estudantes à noite e levá-los à escola.

“O mais importante não foi o prêmio, foi mostrar ao aluno que ele é capaz, que pode fazer um projeto.”

Amélia acrescenta que a função da escola é mostrar que o conhecimento não requer condição social. Para a professora, a Escola Meninos e Meninas mostra que a porta da rua não precisa ser a serventia da casa.

Agência Brasília

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